Muitos pais chegam no consultório assustados perguntando se a criança tem apraxia de fala, pois pesquisou na internet e descobriu que é um diagnóstico grave.
A apraxia de fala infantil, ou AFI, é um distúrbio dos sons da fala que afeta a precisão e consistência dos movimentos relacionados à fala, mas que não são explicados por alterações neuromusculares.
Traduzindo, a criança sabe o que dizer, mas o cérebro dela tem dificuldades para mandar a mensagem correta para os músculos da boca, responsáveis para que as palavras saiam corretamente. É como se a criança planejasse dizer “BA”, mas o cérebro manda a informação para a ponta da língua levantar, em vez de contrair os lábios para fazer o som do /b/.
Estima-se que 2 em cada 1.000 crianças tenha apraxia, com maior prevalência em meninos do que em meninas. Também existem relatos de maior probabilidades de distúrbios concomitantes, como atraso de linguagem expressiva e/ou dificuldades para aprender a ler e escrever, ou em síndromes como X frágil., síndrome de Rett e síndrome de Prader-Willi.
Como identificar:
Atualmente, não existem protocolos e recursos validados que consigam diferenciar a apraxia de fala de outros distúrbios de fala infantil, mas existem características que apontam para um atraso no planejamento motor de fala:
- Erros inconsistentes: Se pedimos para uma criança que troca T por K repetir a palavra Tatu em 3 momentos diferentes, ela sempre trocará o mesmo som pelo outro, dizendo: “Kaku” em todos os momentos. Já criança com apraxia terá diferentes erros, com dificuldades para encontrar as consoantes, e pode até dizer cada vez um som diferente por tentativa: Tatu pode ser dito como Pabu, Pegu, Matu.
- Prosódia inadequada: A fala pode ser mais lenta e arrastada, com erros na ênfase das sílabas, falta de fluidez, pausas excessivas e monotonia.
- Tateamento articulatório: A criança move a boca, como se estivesse buscando onde o som é produzido.
- Dificuldades na transição de um som para o outro e erros de vogais;
Exemplos de produção:

Palavra-alvo: Cachorro
Você consegue perceber que os erros podem variar em tentativas diferentes, como a exclusão de sons e erros na sílaba tônica?

Palavra-alvo: Mamãe
A criança pode dizer: “Ma…ma”, “Mai”ou apenas o som prolongado “mmm…
Como funciona a avaliação e terapia fonoaudiológica:
Na avaliação, buscamos todo o histórico de saúde e desenvolvimento da criança, seguindo para uma análise detalhada dos sons de fala que a criança produz, com provas de nomeação, imitação e fala espontânea, onde observamos:
- Precisão dos movimentos articulatórios;
- Inteligibilidade e consistência de fala;
- Aspectos motores orais;
- Desenvolvimento de linguagem
A terapia consiste no fornecimento de pistas multissensoriais para auxiliar na produção de fala, adequação geral da comunicação, incluindo uso de comunicação suplementar alternativa. Os treinos precisam ser intensos, repetitivos e individualizados, utilizando abordagens que possuem resultados positivos na literatura, e que melhor se enquadram para a criança.



